Manique - A Azenha

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Para além da ponte antiga que atravessa a localidade, a umas centenas de metros jusante, encontramos outra ponte feita de dois grandes lajões assentes sobre um talha-mar, que dá acesso à margem.

Por detrás dum grande paredão encontra-se a azenha, de que foi moleiro Amaro Policarpo, mais conhecido pelo Amaro Moleiro.

Homem robusto mas atacado por doença (quando o conhecemos) que o não deixava trabalhar, além de que os produtos para farinação também rareavam, manifestava numa simples frase, que pronunciava de vez em quando, toda a sua mágoa e tristeza por se ver reduzido a um simples espectador da destruição do seu património e do seu ganha-pão: "É assim!... É assim!..."

Recebia por mês uma pensão de 3500$00 (1984) - atualmente dezassete euros e meio...

A azenha era movida por um curso de água desviado do rio, que fazia girar duas rodas, as quais, por seu turno, punham em movimento um par de mós. Para obviar às paragens por falta de água, o Amaro Policarpo adquiriu e montou um motor a gasóleo, o que lhe permitia a laboração contínua do seu engenho.

Quer seu Avô e seu pai já haviam sido moleiros no local e quase todos os seus parentes exerceram a mesma profissão em vários locais do concelho.

O seu entusiasmo pela sua arte é tal que, mesmo com dificuldades, nos quais mostrar o funcionamento da azenha e até como se substituíam as pesadas mós, o que, aliás, era feito por intermédio dum engenhoso sistema, que quase poderia ser manejado por um adolescente.

A casa onde se encontra instalada a azenha é composta dum pavimento térreo e metade é ocupada também por um pequeno primeiro andar.

Ao entrarmos, tivemos a impressão de que a azenha ainda trabalhava. Um finíssimo pó braqnco espalhava-se sobre o soalho, dando-nos a sensação de que estava coberto de farinha. A ilusão durou pouco.

Era apenas o pó provocado pela roedura do caruncho nas traves do tecto. As aranhas por ali tecem as suas teias que assumem um matiz colorido, quando os raios de sol as atravessam, ao entrarem pela pequena janela que ilumina o interior.

As ratazanas passeiam-se com à-vontade pelas travessas superiores, sentindo-se donas e senhoras da propriedade.

Um dia, quando Amaro Moleiro deixar de plantar as suas alfaces e as suas couves nos alfobres que rodeiam a azenha ou deixar de colher os figos das grandes árvores que ali existem, tudo desaparecerá, tudo ruirá e poucos se lembrarão da azenha, tal como tem acontecido a outras do nosso concelho.

Nada mais restará do que este apontamento e as fotografias que tirámos.

 

Fonte:

Livro "Registo fotográfico de alcabideche e alguns apontamentos histórico-administrativos" realizado por Guilherme Cardoso, Jorge Miranda e Carlos A. Teixeira com o apoio da Junta de Freguesia de Alcabideche, C.M. de Cascais, Associação Cultural de Cascais e Assembleia Distrital de Lisboa em 2009.